Sucesso absurdo de ARC Raiders forçou a Embark a mudar de estratégia

O sucesso de ARC Raiders surpreendeu até a Embark. Muito bem recebido no lançamento, o extraction shooter extrapolou as fronteiras do gênero e conquistou um público três vezes maior do que o estúdio esperava. O resultado, porém, trouxe desafios que a desenvolvedora não estava totalmente preparada para enfrentar.

Com uma equipe consideravelmente menor que a de gigantes do mercado, a Embark precisou repensar o cronograma de atualizações de ARC Raiders. A estratégia inicial, baseada em novidades mensais, não correspondeu às expectativas de parte da comunidade e deu lugar a um modelo de grandes atualizações mais espaçadas, com maior atenção ao feedback dos jogadores.

Em entrevista ao VOXL, Caio Braga, brasileiro e diretor de produção da Embark, falou sobre os bastidores do sucesso inesperado, os desafios enfrentados pela equipe e as decisões que devem definir os próximos passos do jogo.

ARC Raiders colhe os frutos do novo fluxo de updates

Quando foi lançado, ARC Raiders tinha um cronograma de atualizações mensais. Ajustes de balanceamento chegavam toda semana, enquanto conteúdos inéditos, como inimigos, armas, mapas e eventos, seriam lançados todo mês. Em maio, a empresa repensou o cronograma e passou a focar em grandes atualizações semestrais, mantendo correções e eventos menores ao longo do ano.

Embora fosse uma tentativa de manter o jogo sempre fresco e com conteúdo inédito, a estratégia não agradou parte da comunidade. Algumas atualizações pareciam pequenas demais frente às novidades esperadas pelo público – principalmente a parcela mais dedicada, que acumulava centenas de horas de gameplay. A simples adição de eventos, um ou dois ARCs ou armas não parecia matar a fome dos jogadores.

ARC Raiders vendeu três vezes mais do que o projetado pela Embark. Foto: Embark/Divulgação

“Queremos entregar a melhor experiência possível”, disse Caio Braga. “Ver essa reação dos usuários de que o modelo mensal não era suficiente nos fez, em vez de aceitar a derrota, dizer ‘espera aí, temos um caminho aqui. Vamos dar um passo atrás, focar em resolver os problemas e trazer de novo a melhor experiência’”, continuou.

A primeira grande atualização sob o novo cronograma foi entregue ao público na quinta-feira (8), e os primeiros resultados são notáveis. Segundo o SteamDB, o número de jogadores na Steam já parecia subir nos dias que antecederam o update, e o primeiro final de semana registrou um pico de mais de 182 mil jogadores simultâneos – muito acima dos cerca de 40 mil registrados no pico de setembro.

O crescimento, contudo, não pode ser atribuído exclusivamente à atualização. ARC Raiders também ficou disponível gratuitamente entre os dias 8 e 12 de outubro, além de receber um desconto de 50% na compra.

Nesta atualização, batizada como “Frozen Trail”, a Embark entregou um pacote significativo de novidades, incluindo o retrabalho de sistemas que há meses acumulavam críticas e problemas – a Árvore de Habilidades e o sistema de progressão dos Raider Decks, por exemplo. Os antigos Cred também foram substituídos pelos Reward Points.

Sucesso de ARC Raiders pegou até a Embark de surpresa

Questionado sobre o que teria feito diferente no lançamento de ARC Raiders, Braga disse que teria adotado uma postura mais “pé no chão”. “Pensando no tamanho da nossa equipe e com os pés no chão, eu teria adotado uma cadência mais espaçada desde o primeiro dia. Isso permitiria colher mais feedback da comunidade e focar no que os jogadores realmente queriam”, comentou o desenvolvedor.

Embark/Divulgação
Nas atualizações mensais, as novidades eram diluídas ao longo dos meses. Foto: Embark/Divulgação

“Nosso roadmap original era baseado no que nós achávamos que o jogo precisava, não na demanda direta do público. E, se pudesse fazer um pedido, teria expandido a equipe um pouco antes do lançamento, pois não imaginávamos uma escala tão grande”, disse.

ARC Raiders foi um sucesso ímpar no gênero de extraction shooters e um dos jogos multiplayer como serviço mais bem recebidos nos últimos anos, mesmo sendo um jogo pago. O pico máximo de jogadores na Steam aconteceu dias após a estreia, com quase 482 mil jogadores simultâneos. Segundo um relatório financeiro da Nexon, publicadora do game, foram 4,6 milhões de cópias vendidas apenas no primeiro trimestre de 2026, elevando o acumulado para 15,5 milhões. Em maio, o total já havia superado 16 milhões de unidades.

Igor Almenara/TecMundo/Estadão
ARC Raiders chegou a 185 mil jogadores simultâneos no final de semana só no Steam, mas o número é uma fração do sucesso de estreia. Foto: Igor Almenara/TecMundo/Estadão

Diferente de empresas como Activision Blizzard, EA e Ubisoft, a Embark é um estúdio significativamente menor – antes de ARC Raiders, o único jogo lançado pela empresa foi The Finals. A empresa esperava fazer sucesso, mas não conseguiu prever sua dimensão.

“A Embark é bastante ambiciosa e produz jogos para terem sucesso. O que é difícil mensurar com antecedência é a escala exata desse sucesso. A gente projetava vender talvez um terço do volume real alcançado nos primeiros meses – e um terço já seria um patamar expressivo de alguns milhões de cópias. O tamanho do sucesso foi um susto a ponto de nos vermos às vésperas das festas de fim de ano pensando em como dar suporte à demanda”, comentou Braga.

Enquanto parte da equipe foi descansar durante as festas de fim de ano, alguns membros continuaram presentes no projeto. Mesmo com tanta correria, Braga disse que a Embark conseguiu preservar um ambiente de trabalho saudável e sem crunch – um assunto geralmente polêmico entre grandes estúdios.

“Eu defendo muito um ambiente de trabalho saudável”, disse Braga. “Há estúdios que exageram em horas extras e crunch. Houve um pouco de hora extra, mas muito pouco em comparação com minhas experiências anteriores e com a média do setor”.

Modo PvE entra em fase de testes

As novidades de Frozen Trail, porém, não acabaram e devem manter a comunidade ativa por mais tempo. Uma das adições mais pedidas pela comunidade – e talvez mais controversas – é o modo PvE, que entra em fase de testes nesta terça-feira (13).

A Embark decidiu introduzir a modalidade alguns dias após a atualização propositalmente, contou Braga. “Estamos cadenciando o PvE para que, primeiro, a comunidade foque no que há de novo – novas armas, novo mapa – e aproveite isso”, pontuou.

“Sempre dissemos que queríamos abrir o gênero de extraction shooter para outros públicos. Conseguimos isso, mas não esperávamos esse público tão dividido. Agora, teremos o lançamento do PvE, por exemplo. Há um tipo de usuário que nos diz ‘não quero PvP, ponto final; se tiver, não jogo mais’. Com todas essas surpresas, foi muito mais estratégico sentar e falar: ‘espera aí, vamos ouvir o que o público quer’”, disse Braga.

No modo PvE, jogadores não podem causar dano uns aos outros. O combate é focado nos ARCs, mas há outras diferenças em relação às partidas convencionais, incluindo recompensas de menor valor e restrições de acesso a determinadas condições de mapa.

Neste primeiro momento, o modo é de caráter experimental e ficará disponível entre os dias 13 e 20 de outubro. A Embark afirma que acompanhará de perto o impacto da modalidade na comunidade, inclusive nas partidas tradicionais de PvPvE. Não há nem sequer confirmação de que ela será lançada de forma definitiva futuramente.

A mudança no cronograma e a introdução do PvE refletem uma nova postura da Embark diante do sucesso de ARC Raiders. Depois de admitir que subestimou a dimensão do público e planejou as atualizações sem considerar suficientemente suas demandas, o estúdio agora tenta equilibrar as próprias ambições com aquilo que os jogadores realmente querem. Resta saber se a nova estratégia será suficiente para manter o fôlego do game a longo prazo.

Acompanhe o VOXL para conferir mais novidades sobre ARC Raiders e os próximos passos da Embark.

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