Um estudo publicado no The BRIEF recentemente mostrou que homens e mulheres foram avaliados de forma diferente ao admitirem usar inteligência artificial no trabalho. Mesmo com currículos idênticos, homens continuavam sendo percebidos como competentes e estratégicos. Mulheres, por outro lado, eram vistas como menos capazes e menos confiáveis.
A pesquisa é interessante porque ela não fala exatamente sobre capacidade técnica, mas sobre quem continua parecendo naturalmente competente mesmo quando está apoiado em ferramentas. E é aí que a coisa fica complicada. Mulheres costumam precisar sustentar uma ideia de competência muito mais contínua, como se qualquer apoio, mediação ou erro arranhasse imediatamente sua legitimidade profissional.
E isso tem tudo a ver com saúde mental. Porque quando as empresas replicam desigualdades sociais históricas, baseadas em relações desiguais de poder, elas não estão só reproduzindo um problema cultural “lá de fora”. Elas estão participando ativamente da forma como sofrimento, culpa, sobrecarga e reconhecimento são distribuídos dentro da sociedade. Isso adoece as mulheres.
O fato é que não dá pra se basear na premissa de que homens e mulheres saem do mesmo ponto de partida. Não saem. E essa diferença não começou com a IA. A tecnologia só deixou mais visível uma lógica antiga.
Pegando o gancho do mês das mães, a maternidade talvez seja um dos exemplos mais claros disso. Homens que exercem cuidado costumam receber reconhecimento adicional, mas as mulheres seguem sendo percebidas como naturalmente responsáveis pelo cuidado físico e emocional da família e pelas tarefas domésticas. O homem ajuda. A mulher tem obrigação.
Usando meu campo de estudo como apoio, recorre a um conceito da psicanálise que pode reposicionar essa discussão. Para o psicanalista Jacques Lacan, a função materna não é exclusiva das mulheres. Justamente por ser uma função, ela fala muito mais sobre sustentar cuidado, presença, leitura das necessidades do outro e continência emocional do que sobre gênero. Ou seja: qualquer pessoa poderia ocupar esse lugar.
Mas socialmente seguimos organizando o mundo como se essa responsabilidade pertencesse prioritariamente às mulheres. E as empresas participam disso muito mais do que gostam de admitir: quando associam liderança à disponibilidade irrestrita, por exemplo. Quando oferecem licenças desiguais. Quando homens cuidadores seguem sendo tratados como exceção admirável. Quando mulheres passam a ser percebidas como menos comprometidas ao se aproximarem da maternidade. Ou quando estruturas inteiras continuam funcionando na expectativa silenciosa de que alguém esteja absorvendo o trabalho invisível do cuidado fora dali.
Eu acredito que seja por isso que tantas discussões sobre diversidade parecem avançar tão pouco, mesmo depois de campanhas, treinamentos e políticas institucionais. A tecnologia mudou rápido, assim como o discurso corporativo, mas as fantasias sociais sobre competência, autonomia e cuidado seguem sendo replicadas e, muitas vezes, reforçando desigualdades que o mercado de trabalho diz querer combater. Mais uma vez chegamos à mesma conclusão: o problema não é a tecnologia, mas a forma como nós, humanos, nos organizamos na sociedade e no trabalho.
