De acordo com uma pesquisa de 2025 do IBGE, somente 5% dos domicílios brasileiros não têm acesso à internet — sendo que 89,2% das casas já usam banda larga fixa como modo de acesso. Esse é um panorama bem diferente de mais de vinte anos atrás, na era de predomínio da conexão discada.
Essa forma de acesso pioneira foi uma das primeiras possibilidades de conexão eletrônica global no mercado, abrindo as portas da “rede mundial de computadores” para o Brasil e o mundo. Foi com ela que conhecemos sites, mensageiros, redes sociais e vários outros serviços online.
Porém, mesmo deixando saudade por envolver programas icônicos e um barulho que destrava memórias em quem viveu o período, essa modalidade de conexão tinha pontos negativos que já eram reconhecidos até mesmo na época.
Tanto tempo depois e com formas tão mais avançadas e rápidas de se conectar, será que ainda é possível se ligar à internet direto pela linha telefônica a partir dessa modalidade clássica? A seguir e com dados exclusivos, o TecMundo relembra o auge e a situação atual dessa conexão.
O surgimento da internet discada
O que hoje chamamos de internet começa com um conjunto de redes separadas entre si, que conectavam uma quantidade limitada de “nós” e eram usadas especialmente por instituições acadêmicas e militares. A ARPANET, nos Estados Unidos, é tida como o principal embrião dessa ideia.
Foi só em 1982 que o protocolo de transmissão TCP/IP foi estabelecido, permitindo uma ligação compatível mesmo entre equipamentos que antes só se ligavam por redes descentralizadas. Essa “interconexão em rede” deu início à estrutura atualmente em vigor.
A internet discada era uma forma de acesso a essa internet que usava a linha telefônica fixa para ligar o computador ao provedor e fazer a transferência de “pacotes”, que são os dados transportados durante uma conexão.
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Os primeiros serviços nessa categoria surgem ainda nos anos 1980 nos Estados Unidos, ainda com poucos clientes domésticos. Já no Brasil, a Embratel inaugurou o serviço de acesso discado à internet em maio de 1995. A estatal não manteve o monopólio por muito tempo, logo ganhando a concorrência de provedoras privadas.
Entre o fim da década de 1990 e a primeira década dos anos 2000, a internet discada viveu o auge no mercado: nomes como a AOL se tornaram gigantes da tecnologia pelos serviços oferecidos, enquanto o público brasileiro conheceu portais que ofereciam também os chamados discadores — caso de iBest, iG, Terra, UOL, POP e tantos outros, alguns deles fornecendo promoções de acesso a partir de CDs.
Como essa conexão funcionava?
Se hoje a conexão é feita principalmente a partir de tecnologias com fibra óptica ou antenas em torres de celular, a internet discada aproveitava uma infraestrutura já bem conhecida e eficiente: a rede telefônica fixa.
Essa conexão era feita com o computador realizando uma chamada para o provedor, como se fosse uma ligação telefônica comum — tanto que a tarifa de acesso era cobrada por “pulsos”, ou tempo de ligação, o que poderia gerar contas altas se você ficasse tempo demais conectado.
No caso brasileiro, provedoras ofereciam a cobrança de um único pulso em alguns horários específicos, como depois da meia-noite e aos domingos, entre outros períodos. Além disso, diferente de hoje, o modem poderia ser interno, instalado na forma de em uma placa PCI, ou então externo, com marcas como a US Robotics sendo as mais tradicionais.
Para estabelecer a ligação, o usuário precisava iniciar o processo de discagem por meio do próprio Windows, caso fosse mais experiente, ou a partir do discador, que é um software de interface mais amigável e automatizada fornecida pelo provedor que vende o serviço;

Nessa forma de acesso, a internet ocupava a linha telefônica. Isso significa que não era possível utilizá-la para receber ou fazer chamadas e tirá-lo do gancho significava também o fim imediato da conexão. Em tempos de grande importância do telefone fixo, muitos brasileiros têm memórias de brigas e negociações com os pais sobre quanto tempo poderia ficar conectado e “travando” o uso do aparelho.
Além disso, a velocidade era bem diferente da que estamos acostumados: ela chegava de 14,4 kbps até 56,6 kbps, sem contar ruídos e interferências, o que significava downloads extremamente lentos e demora até para abrir imagens e páginas inteiras. Para efeitos de comparação, hoje a velocidade mais comum e já considerada lenta para certas tarefas é de 100 Mbps — mais de 1,7 mil vezes mais rápido do que o pico atingido pela rede discada.
E aquele som bizarro que saía do modem?
Já o clássico barulho gerado durante essa ligação nada mais era do que é o áudio da “conversa” entre o modem do computador do usuário e a estrutura similar que ficava no provedor.
O modem convertia dados digitais em sinais sonoros para viajar pela linha telefônica analógica. Em outras palavras, o que para os usuários era uma sequência de ruídos era na verdade uma operação de teste e identificação entre duas máquinas para estabelecer uma transmissão.
Ainda existe internet discada em 2026?
Não podemos afirmar que a internet discada deixou de existir de forma oficial, mas ela não é mais prática de ser utilizada ou representativa no mercado global. Como linhas telefônicas fixas seguem ativas e a tecnologia de transmissão de dados por elas ainda é possível, ela pode ser adotada de forma bastante nichada.
Nos Estados Unidos, empresas como EarthLink e NetZero oferecem acesso discado para regiões e usos específicos — mesmo após o fim em 2025 do serviço da então líder dessa categoria, a lendária AOL.

Regiões como Canadá, Austrália e alguns países da Europa também registram uma “resistência” formada por serviços discados em operação. Regiões mais afastadas dos grandes centros, como zonas rurais ou cidades distantes de polos municipais, ainda podem utilizar esse formato pela cobertura reduzida de outras tecnologias de conexão.
E no Brasil?
O caso brasileiro é diferente: em especial depois de 2010, quando entra em vigor o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) do Governo Federal, o país passou por um impulsionamento da adoção de modalidades de conexão mais rápidas e estáveis que a conexão discada — e sem ocupar a linha telefônica e gastar em pulsos, o que foi um alívio para as contas de muitas casas.
Nas pesquisas e consultas feitas pelo TecMundo, não foi possível encontrar operadoras nacionais ou regionais de grande e médio portes que comercializam planos de internet discada para consumidores. Antigos provedores que ofereciam essa conexão e sobreviveram à evolução do mercado migraram para banda larga, a maioria via fibra.
A pesquisa PNAD Contínua do IBGE chegou a afirmar que 0,2% da população com acesso à internet no país usa conexão discada, mas essa informação é contestável. Para começar, as informações são fornecidas pelo entrevistado, o que pode gerar erros na estatística.
Além disso, a própria Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já não divulga estatísticas específicas sobre acessos por linha discada pela falta de representação dela no país. Consultada pelo TecMundo, a agência só encontrou no máximo 586 mil assinantes que têm conexão por cabos metálicos, ou seja, que ainda não passaram para fibra óptica.

Desse número, 21 mil lares apresentam velocidade inferior a 512 kbps — acima dos 56 kbps tradicionais da discada, mas sem atingir o padrão exigido para configurar a conexão como de banda larga. “Não é possível afirmar que todos são discados, mas apresentam características similares. Esse quantitativo é muito inferior ao informado na pesquisa”, diz a Anatel.
Eventuais conexões usando a linha telefônica para transferir dados ainda podem ser usadas apenas em aplicações bem específicas:
- por redes corporativas, que são atendidas por provedores extremamente pequenos ou que mantêm uma estrutura própria;
- um laboratório de pesquisa ou colecionador que opere o próprio servidor de modem, sem fins comerciais, para experimentos ou hobby.
Em janeiro de 2020, a fibra óptica até superou cabos metálicos de cobre, coaxiais e conexões via rádio como as mais utilizadas para uma conexão mais ágil. Além disso, mais recentemente, a internet via satélite por companhias como a Starlink virou uma alternativa mais estável e rápida até para as regiões mais remotas, tornando de vez a conexão discada apenas uma lembrança da primeira era de acesso à rede.
Que fim levou o Cadê, o ‘Google brasileiro’ que reinou no começo dos anos 2000? Descubra nesta matéria!

