O uso de inteligência artificial (IA) para “recriar” pessoas falecidas tem chamado a atenção nas redes sociais. Apesar disso, essa utilidade da tecnologia não é tão nova, já que a IA já até possibilitou a “participação” de uma vítima de homicídio no julgamento do assassino em um caso polêmico, nos Estados Unidos, em 2025.
Várias plataformas com recursos semelhantes têm surgido, como o site Ninna.pro que viralizou na rede social X (Twitter), na última semana, tendo mães e pais que perderam filhos como foco. A ferramenta promete criar uma versão digital da pessoa falecida usando IA.
Em um slogan bastante polêmico, a página cita: “Perdeu seu filho? Recrie o seu herdeiro em 5 minutos com nossa Inteligência Artificial”.
A utilização de IA nesse quesito suscita várias perguntas, dentre elas qual o impacto das novas tecnologias no processo de luto. Elas ajudam as pessoas a lidar melhor com as perdas? O TecMundo conversou com especialistas em busca de respostas sobre a influência desses recursos.
Como funcionam as IAs que recriam pessoas falecidas?
De modo geral, sites e apps que oferecem tal recurso usam informações fornecidas por parentes na alimentação da IA. Isso inclui fotos, vídeos, áudios, mensagens, padrões de escrita, postagens em redes sociais e outros materiais.
Baseando-se nesses conteúdos, o chatbot simula uma experiência de interação com quem se foi. No caso da ferramenta Ninna.pro, a página oficial afirma ser possível gerar o avatar digital do filho, entregando uma “experiência única de paternidade/maternidade virtual”.
O serviço também destaca que a IA mantém conversas naturais, simulando falas de uma criança real e desenvolve sua personalidade por meio da interação. Porém, prints de conversas compartilhados no X geraram polêmica por causa da abordagem de monetização da plataforma.
O cara que desenvolveu isso merece ir pra cadeia puta que pariu a coisa mais diabólica do mundo pic.twitter.com/FwaTPErXuZ
— nico 🦖🇵🇸🇨🇳 (@niconicotina_) June 24, 2026
Em uma das imagens, a IA informa que os créditos estão no fim e pede à “mãe” que continue a pagar para evitar a perda das memórias. Ela sugere o envio de um Pix para a continuidade da assinatura cujo valor não foi divulgado.
Há outras IAs que prometem reconectar familiares a entes falecidos ainda mais completas, com recursos de áudio e vídeo para recriar a voz e a aparência deles, e igualmente resultaram em fortes debates éticos. Uma delas é a 2Wai, que gera “gêmeos digitais” para interação em tempo real a partir de vídeos antigos.
Já o Project December recria diálogos com parentes mortos a partir do preenchimento de formulários e amostras de trechos de conversas. Os apps Herafter AI e Story File têm funcionamento parecido, com o diferencial de permitirem que o usuário forneça vídeos e histórias ainda em vida para seu futuro clone virtual.
Fotos atualizadas de pessoas que já morreram
Além dos apps que remetem a um dos episódios mais famosos da série Black Mirror, no qual uma mulher devastada pela morte do companheiro recorre à IA para conversar com ele novamente, os serviços de edição de fotos de pessoas falecidas têm ganhado espaço. Eles também usam IA para a tarefa.
No Facebook, é possível encontrar grupos em que pessoas solicitam a restauração de fotos de filhos, parentes e amigos falecidos. De modo geral, o trabalho envolve o tratamento de imagens antigas e a inclusão dos entes queridos em retratos recentes.
Esta outra faceta da tecnologia na experiência de luto também pode envolver recursos de animação facial e a atualização de imagens. No último caso, parentes pedem para ver como a pessoa falecida seria hoje em dia usando ferramentas de IA.
Efeitos das novas tecnologias sobre o processo de luto
A busca por IAs para “conversar com os mortos” tem relação com a necessidade de continuar a história interrompida pela morte, mas o usuário deve separar a tecnologia da realidade. Quem afirma é Natália Aguilar, psicóloga especializada em Cuidado à Perda Gestacional e em Luto Perinatal.
“É preciso compreender que existe uma diferença entre manter uma memória e criar uma sensação de presença, porque uma IA pode até reproduzir características, falas e padrões, mas ela não é aquela criança e não possui uma relação real com aquela família”, ressaltou a especialista, em entrevista ao TecMundo.
Como ela explicou, os efeitos variam de uma pessoa para a outra, funcionando como uma experiência simbólica para expressar sentimentos. Mas também há risco de que os pais fiquem presos na tentativa de manter o vínculo com o filho.

De acordo com Natália, as IAs que recriam parentes falecidos podem gerar uma dependência emocional forte se o usuário vê-la como fonte de conforto, evitando lidar com a perda. Além disso, algumas pessoas ficam confusas e passam a acreditar que a representação virtual é o próprio filho.
“No luto perinatal [perda gestacional ou de recém-nascidos], isso é ainda mais delicado, porque muitas famílias estão tentando construir uma relação com essa história que foi interrompida, que existiu por pouco tempo, mas que teve muito significado”.
“Saudade do futuro”
As montagens de fotos com pessoas que já faleceram feitas por IA têm significado semelhante, mas também podem ser uma tentativa inconsciente de negar ou adiar o contato com a realidade. A explicação é da psicóloga e psicanalista atuante em desastres e emergências, Luciana Inocêncio.
“Quando a tecnologia passa a ser utilizada para aliviar constantemente essa dor, essa lacuna, existe o risco de ela se transformar num mecanismo de evitação emocional, o que dificulta a elaboração ‘saudável’ e necessária do luto”, comentou, em conversa com a reportagem.
Ela disse, ainda, que imagens recriadas com IA podem gerar uma sensação momentânea de reencontro seguida por uma nova experiência de perda, se utilizadas repetidamente. Dessa forma, há tanto benefícios quanto desvantagens.

Para Luciana, a curiosidade de saber como uma criança falecida seria quando adulta é uma tentativa de preencher o vazio deixado pelo que passou e também por momentos que não foram vividos. A especialista descreve o processo como “saudade do futuro”.
“Embora esse interesse seja compreensível do ponto de vista emocional, é importante lembrar que nenhuma tecnologia consegue reparar a ausência. Ela apenas oferece uma representação imaginária, que pode trazer até algum tipo de conforto temporário, mas, também pode reforçar a dificuldade de aceitar a realidade da perda”, comentou.
Como lidar com o luto?
Quem sofre com a perda de alguém deve entender, em primeiro lugar, que o luto é uma resposta natural diante da morte e não uma doença, conforme as especialistas. Além disso, não há um prazo definido para superá-lo, pois cada pessoa lida com isso de maneira diferente.
Segundo Luciana, o sentimento de perda precisa ser enfrentado, passando pelas fases. São elas a negação, raiva, barganha, tristeza/depressão e aceitação, que não seguem uma ordem obrigatória nem são experimentadas por todos.
“Sublinho, insisto: luto não é esquecer quem morreu. Significa transformar a relação com essa pessoa. A presença deixa de existir no plano físico, mas permanece no campo das memórias, dos afetos, dos valores e da história construída em conjunto”, explicou.

Mas em alguns casos, a dor da perda pode se estender por mais tempo e levar ao isolamento, afetando o dia a dia. Quando isso acontece, o tratamento psicológico surge como alternativa para ajudar a superar o momento de dificuldade.
“No luto perinatal, especialmente pela morte de um bebê, ser acompanhado por alguém que reconhece essa história e valida essa existência pode ser muito reparador”, ressaltou Natália, destacando que a IA pode ajudar nessas horas, mas sem substituir totalmente os profissionais de saúde mental.
O uso intenso da IA também tem provocado mudanças no ambiente de trabalho, deixando as pessoas mais solitárias. Confira os detalhes nesta matéria.
