Um único treinamento de modelo de IA generativa pode consumir o equivalente ao que 40 famílias brasileiras gastam em energia durante um ano inteiro. Esse número não é um exagero de ficção científica; é a realidade física que a maioria dos executivos de tecnologia ainda não colocou na planilha. Embora a IA generativa seja prioridade para 91% das empresas no Brasil, nossa infraestrutura de GPUs, data centers e energia limpa simplesmente não acompanha essa escala. O maior risco para os projetos de IA hoje não é a falta de algoritmos brilhantes, mas de capacidade computacional bruta para rodá-los.
Até aqui, o debate corporativo foi dominado pelo deslumbramento com o software. Mas a verdade é que as empresas estão comprando placas gráficas, não inteligência. O investimento global explodiu, mas a maior fatia desse dinheiro está indo para servidores, sistemas de refrigeração e chips superpotentes — uma corrida que deve exigir US$ 1 trilhão em infraestrutura até 2027. O problema é que o silício e o cimento não se expandem na mesma velocidade do código.
O Brasil vive um paradoxo fascinante: somos vice-líderes globais na adoção de IA generativa e o terceiro país que mais usa o ChatGPT semanalmente no mundo. No entanto, essa liderança no consumo não se reflete na nossa estrutura física. Os novos racks de servidores de IA exigem dezenas de quilowatts por gabinete, e tecnologias fundamentais como a refrigeração líquida ainda engatinham por aqui. Para piorar, a construção de data centers nos Estados Unidos, nossos principais fornecedores de nuvem, enfrenta atrasos de mais de 60%, gerando um efeito cascata que sufoca o mercado brasileiro.
Se a escassez de silício preocupa, o apagão energético assombra. O consumo de eletricidade pelos data centers pode dobrar até 2030. Estima-se que, já nos próximos anos, as operações de IA abocanhem mais de 40% de toda a energia dessas estruturas. A consequência direta? Restrições severas de fornecimento elétrico devem limitar a expansão de quase 40% dos data centers focados em IA. Em termos práticos, quatro em cada dez projetos inovadores podem simplesmente não ter tomada disponível para funcionar.

Processar uma única consulta em IA generativa consome dez vezes mais energia do que uma busca convencional em um banco de dados. É por isso que o armazenamento, a eficiência energética e a continuidade operacional deixaram de ser assuntos técnicos do “pessoal de TI” e assumiram o topo das decisões estratégicas do C-Level. O relatório Tech Trends da Deloitte já crava a inteligência artificial como infraestrutura crítica. E infraestrutura crítica exige, antes de tudo, tangibilidade.
A pergunta que os líderes de negócios precisam responder agora não é quantos modelos de linguagem pretendem criar, mas onde vão ligar as GPUs que sustentam esses modelos. A corrida pela IA virou uma batalha por infraestrutura básica. Quem não garantir contratos de longo prazo, fornecimento de energia e capacidade física verá seus projetos virarem pilotos eternos, incapazes de ganhar escala de produção. Se o seu projeto de IA fracassar, a culpa dificilmente será do algoritmo. Será do hardware que não deu conta.

