Inovação virou uma palavra confortável demais. Cabe em pitch, em campanha, em manifesto institucional. Mas, quando tudo passa a ser “inovador”, quase nada de fato é. O resultado é uma distorção perigosa: confunde-se narrativa com estrutura, e marketing com competitividade.
O problema é que inovação não é um atributo comunicável, é um deslocamento econômico real. Um estudo recente do NBER sobre transformação estrutural da economia mostra justamente isso: a inovação não apenas acontece dentro de setores, ela migra entre eles ao longo do tempo.
A economia não inova de forma homogênea. Ela reorganiza seus centros de criação de valor, historicamente saindo da indústria e avançando em direção aos serviços e às atividades intensivas em conhecimento. Esse deslocamento não é cosmético. Ele redefine produtividade, crescimento e, principalmente, quem lidera os mercados em cada ciclo.
Isso muda uma premissa importante: inovação não é o que uma empresa diz sobre si mesma, mas o lugar que ela ocupa dentro dessa reorganização estrutural. Em outras palavras, não se trata de parecer inovadora, mas de estar posicionada onde a inovação está acontecendo e, mais ainda, onde ela está migrando.
É aqui que o discurso corporativo costuma falhar. Muitas empresas tratam inovação como uma camada de marketing adicionada ao modelo existente, quando na prática ela deveria ser o próprio mecanismo de reinvenção do modelo. O resultado é uma ilusão de movimento: produtos “novos” que não alteram estruturas, iniciativas “digitais” que não mudam produtividade, estratégias “disruptivas” que não se conectam a mudanças reais de mercado.
Na prática, quem está no centro desse movimento vê outra dinâmica. Em minha experiência como CEO da Plug and Play, atuando na conexão entre startups, corporações e capital de risco, inovação não é discurso, é fluxo de capital e tecnologia encontrando problemas reais em setores específicos. E esse fluxo não respeita organogramas. Ele atravessa indústrias, redesenha cadeias de valor e força empresas a escolherem entre duas posições: participar da nova arquitetura de mercado ou ficar presas à antiga.

É por isso que reduzir inovação a marketing não é apenas um erro conceitual, é um erro estratégico. Marketing pode até contar a história da inovação. Mas não substitui o que realmente importa: a capacidade de uma empresa de se reposicionar dentro da transformação estrutural da economia.
No fim, inovação não é sobre o que se diz. É sobre onde se está quando a economia muda de lugar.

