A defesa do retorno obrigatório ao escritório por parte de grandes executivos pode estar relacionada menos à produtividade e mais à busca por poder e status. Essa é a conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, que analisou durante seis anos o comportamento de CEOs de empresas da Fortune 500 e encontrou uma associação direta entre traços de narcisismo e a oposição ao trabalho remoto e híbrido.
Os resultados ganharam repercussão após serem destacados pelo psicólogo organizacional Adam Grant em artigo publicado no The New York Times na segunda-feira, 22, em meio ao movimento de grandes companhias que vêm endurecendo suas políticas de retorno presencial aos escritórios.
Entre os exemplos citados estão Andy Jassy, CEO da Amazon, que afirma que a colaboração presencial é mais eficaz; Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, crítico do excesso de reuniões por videoconferência; e Adam Mosseri, chefe do Instagram, que associa a presença física à inovação. Já Larry Fink, CEO da BlackRock, chegou a argumentar que a ocupação dos escritórios poderia contribuir para reduzir pressões inflacionárias.
Como o estudo mediu o narcisismo
Para avaliar o perfil dos executivos, os pesquisadores criaram um índice de narcisismo baseado em indicadores comportamentais observáveis. Entre eles estavam o tamanho das assinaturas dos CEOs, a dimensão de suas fotografias em relatórios anuais e a diferença salarial em relação a outros executivos da empresa. Segundo o estudo, quanto maior a pontuação nesse índice, maior a probabilidade de o líder se posicionar publicamente contra modelos flexíveis de trabalho.
Os pesquisadores também identificaram que esses CEOs tendiam a buscar posições adicionais de poder, como a acumulação do cargo de presidente do conselho de administração. Em outra etapa da pesquisa, executivos que foram estimulados a refletir sobre estilos de liderança assertivos de figuras como Steve Jobs e Larry Ellison passaram a demonstrar rejeição significativamente maior ao trabalho remoto quando comparados a um grupo de controle.
“Quanto mais elevada a opinião que os líderes tinham de si mesmos, mais ambicionavam poder e status, e mais favoreciam mandatos para retornar ao escritório”, escreveram Grant e os demais autores no artigo publicado no The New York Times.
Na avaliação dos pesquisadores, os resultados servem como um alerta para empresas e conselhos de administração. Embora existam razões legítimas para exigir maior presença física das equipes, o estudo sugere que decisões sobre o modelo de trabalho podem ser influenciadas por fatores pessoais dos líderes.
Segundo os autores, o ego dos executivos pode levá-los a ignorar benefícios já identificados em modelos flexíveis, como satisfação dos funcionários, retenção de talentos e ganhos de produtividade em determinadas funções.

