Um filme sobre um homem apaixonado que quer, mais do que tudo, ser correspondido. Na vida real, esse desenrolar pode resultar em uma linda história de amor ou em uma insistência inconveniente e até trágica. Obsessão, escrito e dirigido por Curry Barker, vai um pouco além. O longa-metragem de terror vai ao limite da forma mais factível que esse roteiro fantasioso poderia permitir.
Por quase 2 horas, o telespectador acompanha uma narrativa não tão complexa, mas que te mantém ali preso sem nem ver o tempo passar. Mas afinal, com seus mais de 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, será que Obsessão realmente se destaca? Confira a crítica do Minha Série abaixo.
Roteiro perturbador e bem executado
Com um começo despretensioso, parece que você está assistindo a um filme indie de romance. A escolha da trilha sonora, o tratamento da imagem, a proporção 4:3, o figurino: tudo leva para esse caminho. Nesse momento, o roteiro até flerta com alguns indicativos de terror, mas o momento de virada fica bem claro — e é a partir dele que a tensão realmente começa.
Uma vez o terror começa, ele não para mais. O que me pegou de surpresa foi a quantidade de humor que foi inserido nos momentos mais macabros da história. As falas dos personagens são tão absurdas que provocam risadas quase que inevitáveis que ajudam a tornar o filme mais leve, mas sem deixá-lo superficial.
Nada no filme diz que Curry Barker é um cineasta iniciante. Talvez sua abordagem criativa para provocar medo sem precisar recorrer a recursos surreais seja o que mais mostra que o diretor ainda possui energia para muitas outras produções.
Para envelopar o roteiro com chave de ouro, os atores que interpretam os protagonistas definitivamente dão conta do recado. Michael Johnston dá vida a um Bear irritante e imaturo o suficiente para não torcer por ele durante o filme, enquanto Inde Navarrette incorpora todas as camadas de Nikki com maestria, mas não posso falar muito mais sobre a personagem para evitar os spoilers.
O óbvio utilizado de maneira inteligente

Parece óbvio que, para um filme ser completo, ele precisa que a luz e o som sejam pensados de maneira consciente, mas não é mais tão comum que os diretores inovem nesses aspectos. Não à toa, a iluminação dos filmes mais antigos tem sido comparada com a iluminação opaca que será trabalhada apenas na pós-produção utilizada em diversos filmes atuais. Obsessão trabalha muito esses dois fatores técnicos.
É estranho dizer isso, mas: as sombras são as estrelas do terror nesta narrativa. A forma que a iluminação é utilizada nos momentos sombrios acaba deixando todo o aspecto de terror muito mais crível. O filme dispensa qualquer efeito que deixe a imagem sobrenatural demais e aposta de maneira certeira na escuridão.
Quando falamos de jump scares, aqueles sustos repentinos que te fazem pular da cadeira (eu mesma derrubei minha caneta no meio da sessão em um desses), o som é constantemente utilizado como recurso, mas aqui o diretor levou para outro nível. Sons inesperados chegam de maneira diegética, fazendo parte da cena, além de muito bem executados.
Idade não é sinônimo de competência

Nada no filme diz que Curry Barker é um cineasta iniciante. Talvez sua abordagem criativa para provocar medo sem precisar recorrer a recursos surreais seja o que mais mostra que o diretor ainda possui energia para muitas outras produções. A visão dele claramente não está cansada, muito pelo contrário.
A direção e o roteiro de Barker amarram cada parte do filme. Ele surpreende, passa a impressão de que cada ponto foi muito bem idealizado e, então, executado. A narrativa é inteligente e pode provocar discussão relevantes sobre machismo, idealização da mulher e sobre até onde a obsessão é amor, de ambos os lados da história. Com certeza mostra que, com apenas 25 anos, o diretor ainda tem muita história para contar e deve contá-las bem.
Vale a pena assistir Obsessão?
O filme faz jus a sua reputação. Entretendo do começo ao fim, Obsessão deve agradar tanto aos fãs de terror quanto àqueles que só querem assistir a uma boa produção. Sem apelar para o excesso de jumpscares, gore ou outros recursos clássicos do terror, o filme assusta e faz refletir.
Ao apostar no som e imagem super relevantes e complementares à narrativa, Obsessão merece ser visto no cinema. Com atuações que deveriam render prêmios para os atores, agora só resta entender se a obra quebrará o tabu das indicações a filmes de terror, assim como A Hora do Mal, e será reconhecida como deveria.
*O Minha Série foi à pré-estreia de Obsessão a convite da Universal Pictures Brasil.
