Embora a indústria de games movimente bilhões de dólares, gere empregos e crie comunidades cada vez maiores, é fato de que todo esse espaço foi construído majoritariamente por homens, não tendo muita brecha para a participação de mulheres na indústria – algo que felizmente tem começado a mudar nos últimos anos.
A palestra “Mulheres que Movem o Game: Liderança, Estratégia e Impacto no Mundo dos Negócios”, realizada durante o São Paulo Innovation Week (SPIW), trouxe esse debate à tona. Caju Capitani, diretora de inovação na paiN Gaming, e Cynthya Rodrigues, professora de pós-graduação na ESPM e publicitária de formação contam suas experiências num mercado que demorou para reconhecer o trabalho de cada uma.
Caminhos que ninguém traçou antes
Caju começou na faculdade de direito, área totalmente diferente de onde trabalha hoje. Foi acompanhando o namorado – na época, um jogador profissional de League of Legends – que começou a entender o universo dos streams e das lives, dando sugestões de como aumentar a audiência usando táticas de marketing. “Não era normal os insights que eu tinha enquanto acompanhava o ramo”, disse. Suas ideias fizeram com que os números nos streams aumentassem, fazendo com que ela ganhasse gosto pelos games.
Um desses insights virou um dos projetos mais relevantes do cenário gamer brasileiro: ela teve a ideia de criar um servidor brasileiro de GTA RP (roleplay de GTA online) que se tornou o maior da América Latina, chegando a chamar a atenção da própria Rockstar Games. Já Cynthya chegou ao mercado de games pela publicidade, já com a intenção de mudar a área, decisão pessoal que tomou muito cedo na vida. “Quem faria as mudanças necessárias senão ela? Para os homens brancos privilegiados estava tudo bem. Pra que mudar em time que tá ganhando?”.
Liderança com gentileza e coragem
Ao falar sobre posições estratégicas no mercado de jogos, as duas se complementaram ao falar sobre liderança.
Para Cynthya, liderança é sobre inspiração e sobre provar que é possível gerar resultado sem reproduzir os comportamentos que ela mesma criticou ao longo da carreira. “Eu preciso inspirar essas pessoas, não ser como líderes que claramente não deviam estar lá. A gente pode gerar dinheiro para a empresa de forma gentil, tratando bem os outros.”
Para Caju, liderança exige coragem visível. “Se a equipe ver que você tem medo, isso pode ser ruim. Na frente da equipe, você precisa mostrar força.” Mas força, no sentido que ela usa, não é dureza — é fazer a equipe se sentir valorizada e puxá-la junto.
Ainda tem muito a mudar
Ao falarem sobre os desafios que mulheres ainda enfrentam quando chegam a posições de decisão no mercado gamer, Caju falou sobre algo que experimenta até hoje, com mais de uma década de experiência: a dúvida constante de terceiros sobre se ela sabe do que está falando. “Não importa o histórico, não importa o portfólio. A dúvida persiste”.
Cynthya trouxe uma visão que ela observa nas mentorias que realiza: quando pergunta às mulheres qual é o maior case da carreira delas, a resposta quase sempre vem no plural. “A gente fez isso. A empresa fez isso.” Raramente “eu fiz.” “A gente tem muita síndrome da impostora. Vamos falar mais das nossas conquistas. Senão é promovido quem cacareja mais perto do chefe.”
Ela também falou sobre a maternidade – um tema que raramente aparece em debates sobre liderança, mas que deveria. “A gente tem que se provar mesmo após ter um filho. Precisamos nos provar até em momentos assim, cansadas. O nosso corpo muda e mesmo assim precisamos estar bem para todo mundo.” Caju complementou: até numa entrevista de emprego, mencionar que tem filhos ainda vira motivo de julgamento.
“Meta a cara e faz”
O final do painel foi dedicado a conselhos para mulheres que querem entrar no mercado gamer mas ainda não se sentem pertencentes a ele. “Faz. Só faz. Meta a cara, tenha coragem”, disse Cynthya. E completou: se o espaço não existe, crie. Se não tem comunidade, construa.
Caju adicionou uma camada mais pessoal: prepare-se psicologicamente, porque o caminho vai ser difícil. Mas não desista antes de testar. Trocou de jogo se o primeiro não deu certo. Jogou de madrugada se é lá que o público está. “Se você tem fé nisso que está fazendo, invista e vai. Se você não confia em você mesmo, ninguém vai confiar.”
A última fala de Cynthya resumiu o espírito de toda a conversa: “Coragem não falta pra gente. O que falta é espaço, convites: palco, sentar na mesa e tudo mais. A gente se preparou para estar ali. Sabemos do que estamos falando.”
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