Marathon é o novo extraction shooter da Bungie e chega com uma proposta curiosa dentro do gênero. Ambientado no distante planeta Tal Ceti IV, em um futuro distópico, o jogo aposta em uma identidade visual marcante e em um loop de gameplay intenso, mas também apresenta desafios de acessibilidade para novos jogadores.
O jogo é uma espécie de reboot da Marathon da década de 1990, um Boomer Shooter sci-fi estilo Doom. Desta vez, o game é totalmente multiplayer online, sem campanha single-player, e oferece um único modo de jogo.
Em Marathon, você é uma consciência virtual implantada em corpos sintéticos, as Armações. Você deve visitar Tal Ceti IV para atender aos anseios das facções – algumas delas, inteligências artificiais –, que conflitam entre si e contra a UESC (Unified Earth Space Council).
Com jogabilidade PvPvE no gênero de extração de tiro, o game te coloca em um intenso e belíssimo ciclo de vida e morte multiplayer. Essa intensidade, no entanto, pode ser bastante desafiadora para alguns jogadores.
Visual exótico
Marathon experimenta uma identidade visual incomum entre games de grande orçamento. Tudo em Tal Ceti IV é composto por formas geométricas simples e de contornos evidentes — o que rendeu várias comparações até mesmo com Roblox.
No entanto, essa estética é proposital: a Bungie chama o visual de “retrofuturismo gráfico”, visando entregar algo tecnológico, mas ao mesmo tempo capaz de impressionar jogadores com suas peculiaridades. Atualmente, esse conceito é aplicado em três mapas já disponíveis: Perímetro, Pântano Sombrio e Posto Avançado, com mais um chegando em breve, o chamado Cryo Archive.
A preferência por um estilo visual é algo extremamente subjetivo. Para mim, Marathon é lindo. O jogo explora um estilo artístico futurista incomum que prioriza a função sobre a forma, além de ser extremamente fiel à natureza daquele universo, em que tudo é fabricado e sintético.
As cores vibrantes e as texturas simplificadas contrastam superfícies foscas e reflexivas. Tudo parece fazer sentido dentro da lógica de Tal Ceti IV.
Há quem diga que o jogo parece infantilizado e até faça comparações com LEGO ou Roblox. O uso de cores vibrantes e formas simples reforça essa associação. Trata-se, porém, de uma questão de preferência — e a Bungie foi ousada ao adotar essa estética com tanta dedicação, mesmo sabendo que não agradaria a todos.
Em um extraction shooter, em que a leitura de informação é parte importantíssima do loop de gameplay, o visual não atrapalha. É verdade que às vezes é difícil distinguir jogadores dos robôs da UESC, mas acredito que isso faça parte da proposta original. Como consequência, a tomada de decisão tende a ser ainda mais cautelosa.
A polêmica do plágio
Em maio de 2025, um artista independente percebeu que Marathon usava alguns de seus materiais autorais em texturas do jogo. Contudo, a implementação desse conteúdo aconteceu sem autorização ou qualquer compensação financeira na época.
We immediately investigated a concern regarding unauthorized use of artist decals in Marathon and confirmed that a former Bungie artist included these in a texture sheet that was ultimately used in-game.
— Marathon Development Team (@MarathonDevTeam) May 16, 2025
A Bungie reconheceu o uso não autorizado após o assunto se alastrar no noticiário e nas redes sociais. A empresa se desculpou pelo ocorrido e a artista foi devidamente listada como “Consultor de Design Visual” nos créditos de Marathon.
Gameplay
Em Marathon, você controla Armações, que são corpos sintéticos produzidos pela Sekiguchi, uma das facções do jogo, nos quais sua consciência é implantada. Cada Armação oferece um conjunto próprio de habilidades, como invisibilidade, escudos, rastreamento de inimigos, robôs de cura e até um gancho.

Antes de iniciar uma corrida, o jogador precisa escolher uma armação e preparar o próprio equipamento. As opções incluem:
- Montar um kit personalizado com armas e equipamentos do seu cofre;
- Escolher um kit patrocinado (gratuito ou pago) do Arsenal, sem possibilidade de adicionar consumíveis ou aprimoramentos;
- Selecionar a Armação “Rook”, que oferece um kit gratuito com arma aleatória.
O conjunto de opções de loadout em Marathon é extremamente variado. Ao mesmo tempo, exige do jogador uma leitura cuidadosa sobre núcleos e outros componentes do sistema, adicionando peso ao processo de preparação e aos itens encontrados nas corridas.
Tiroteios são rápidos e intensos
O tiroteio em Marathon é extremamente satisfatório — algo que pode parecer contraintuitivo para quem chega pela primeira vez ao gênero de extração. O TTK (“time-to-kill”) é bastante curto nos primeiros momentos do jogo, quando seu personagem ainda é frágil e depende de consumíveis espalhados pelo mapa. Isso significa que há pouquíssimo tempo de reação caso você seja pego desprevenido.
Em Marathon, sair atirando em tudo que se move raramente é uma boa estratégia — e essa é justamente a essência de um extraction shooter. Enquanto battle royales incentivam confrontos frequentes até restar apenas um vencedor, jogos de extração adicionam camadas à tomada de decisão. Afinal, morrer significa perder tudo o que estava com você.
As Armações também se destacam dentro de seus papéis. O Triagem é um suporte extremamente eficiente, enquanto o Assassino explora ao máximo a invisibilidade para despistar inimigos. O Rook, por sua vez, é um catador de restos que pode fazer um estrago notável em corredores desatentos.
Os robôs da UESC não estão para brincadeira
Os confrontos contra os robôs da UESC são intensos. Eles não são bots simples de lidar, como acontece em ARC Raiders. É preciso agir com cautela e evitar ser cercado, principalmente porque as ameaças em Marathon tendem a se somar umas às outras.
No momento, porém, não há grande variedade de inimigos. Os robôs podem possuir habilidades específicas — como escudos, invisibilidade e lança-granadas — mas nada que exija uma reflexão tática profunda, diferente do que acontece em ARC Raiders, onde cada ARC demanda uma abordagem específica.
Ainda assim, Marathon oferece uma combinação justa, afiada e satisfatória entre habilidades e armas. A curva de aprendizado é evidente e jogadores de primeira viagem certamente vão morrer muitas vezes antes de se manterem vivos em corridas mais longas.
Os problemas de Marathon
Para quem já está acostumado com jogos de extração, entender Marathon é relativamente simples. No entanto, colegas menos familiarizados com o gênero tiveram dificuldade até mesmo para compreender o básico — o que definitivamente não é um bom sinal.
O processo de onboarding de novos corredores é precário. O tutorial e as dicas não explicam bem o que está em jogo ou como o jogador deve se comportar. Perguntas como “qual é o objetivo?” ou “o que eu devo equipar?” surgiram repetidamente.
Isso revela um problema importante: um jogador recém-chegado não deveria depender de outros jogadores mais experientes para entender como o título funciona.
Quem vem de jogos como ARC Raiders ou Escape From Tarkov já está acostumado com os processos do gênero — planejamento, preparação de equipamento, execução da corrida e extração. No entanto, o formato ainda é pouco explorado no mercado, e por isso é essencial apresentar seus sistemas com clareza.
Nesse aspecto, ARC Raiders faz um trabalho melhor. O jogador entende desde o primeiro momento o que precisa fazer, embora seus sistemas sejam consideravelmente mais simples que os de Marathon.
A dificuldade inicial tem potencial para afastar jogadores. Diferente de um battle royale, em que todos começam do mesmo ponto, jogos de extração colocam jogadores com diferentes níveis de habilidade e equipamentos para competir entre si. Somado ao TTK curto e aos sistemas complexos, isso torna Marathon pouco convidativo (e muito frustrante) nos primeiros momentos.
A interface pode melhorar
Nas redes sociais, muitos jogadores reclamaram da navegabilidade dos menus. Apesar de existirem qualidades na implementação da Bungie, a interface realmente poderia melhorar.
É necessário passar por diversas telas para ativar uma missão, equipar itens e finalmente entrar em uma partida. Isso pode confundir jogadores, principalmente nos primeiros momentos, quando todos os sistemas são apresentados de uma vez.

Com o tempo, outros problemas ficam evidentes. Listo alguns:
- Acoplamentos de armas poderiam ter compatibilidades mais claras;
- É impossível desacoplar um componente de uma arma sem equipá-la;
- Não há botão de seleção múltipla de itens no Cofre para venda rápida de itens;
- Vários componentes com funções diferentes tem o mesmo exato ícone;
- Para acessar o hub de facções, é preciso sair da tela de preparação de Corrida;
- O Arsenal é uma bagunça de itens com preços diferentes em cada facção e pouco claro sobre o sistema de trocas;
No PC, a navegação já exige tempo. Em controles de console, a experiência é ainda mais lenta – tentei jogar Marathon no PlayStation 5 e não suportei a lentidão da navegabilidade por muito tempo.
A tela de carregamento
Quando você inicia a busca por uma partida em Marathon, todo o grupo é colocado em uma tela animada com o visual característico do jogo. O problema é que não é possível sair dela sem cancelar a busca.
Em um título que depende tanto de leitura e possui tantos materiais de lore no Codex, prender o jogador em uma tela ociosa parece contraintuitivo. Seria interessante permitir gerenciar inventário ou conferir objetivos enquanto a busca acontece.
Um bom exemplo novamente é ARC Raiders, em que a busca por partidas acontece em segundo plano e o jogador fica livre para navegar por menus (inventário, cosméticos e missões) ou pela loja.
Instabilidade no servidor
Enquanto jogava, sofri com problemas de conexão com os servidores da Bungie em diferentes dias. Em determinada ocasião, eu estava durante uma corrida, completamente equipado, e fui removido da partida sem qualquer chance de reconexão, perdendo todo o inventário que estava comigo.

Isso é completamente inadmissível para um jogo cujo custo da morte é a perda total de progresso.
Curiosamente, enquanto fazia capturas de tela para ilustrar esse review, o jogo também denunciou problemas de conexão com o servidor.
Conclusão provisória
Este artigo é um review em andamento a pedido da Bungie. Marathon ainda receberá conteúdo adicional ao longo de março, incluindo um novo modo ranqueado e um novo mapa, Cryo Archive.
Apesar disso, já é possível afirmar que Marathon é um extraction shooter cruel e potencialmente frustrante. Ele não é amigável para iniciantes, mas oferece valor significativo para quem decide insistir. A direção artística é ousada e extremamente marcante — capaz de atrair ou afastar jogadores logo no primeiro contato.
É interessante observar a Bungie, uma desenvolvedora com forte apelo comercial, apostar em um título com tanto atrito inicial. A estratégia parece focada em construir uma comunidade fiel e dar nova vida à franquia Marathon, herdando principalmente a lore dos jogos originais da década de 1990.
Em contraste com ARC Raiders, que é mais acessível para iniciantes, Marathon aposta em sistemas mais complexos e progressão mais íngreme. O jogo da Bungie é desafiador e requer cautela e atenção, mas sem abdicar do jogador elementos importantes como indicadores visuais claros na tela e em mapas.
Acredito que Marathon tem potencial para conquistar uma comunidade dedicada, seja pela gameplay ou pela direção de arte. Ainda assim, melhorias no onboarding e na interface seriam fundamentais para garantir a sustentabilidade da base de jogadores.
Para mim, Tal Ceti IV é lindíssimo — e a morte da minha Armação é apenas mais uma iteração. Continuarei visitando o planeta para atender aos anseios das facções e enfrentar as tropas da UESC.
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Marathon foi fornecido gratuitamente ao Voxel pela Bungie para análise. O jogo foi executado majoritariamente no PC (Steam) equipado com Ryzen 5 3600, Nvidia RTX 2060 Super e 16 GB de RAM.
