Adaptar uma obra para os cinemas nunca é um trabalho fácil. Por anos, fãs de videogame sofreram com a falta de boas adaptações cinematográficas baseadas em jogos, onde a maioria esmagadora dos estúdios se baseava basicamente em: pegar a narrativa principal, alterá-la totalmente e esperar um grande sucesso de bilheteria. Isso começou em 2020, com o lançamento de Sonic: O Filme e posteriormente em 2023, com Super Mario Bros. O Filme – sim, ainda é possível contar uma história nova e boa usando elementos cruciais de cada franquia.
Não à toa, o primeiro filme dos irmãos encanadores bateu recordes de público, fazendo parte do seleto grupo das bilheterias bilionárias, figurando o terceiro lugar das maiores bilheterias de animação da história. O óbvio aconteceu: a Illumination deu o sinal verde para uma sequência, desta vez baseada num jogo querido pelos fãs, o Super Mario Galaxy. Visualmente lindo e com referências para todos os lados, o filme acaba entregando uma aventura esquecível, mas digna de futuros vídeos de easter-eggs que ainda irão rolar em cima da história.
Sequestraram a Princesa (a outra)!
Na sequência, somos apresentados à Princesa Rosalina (Brie Larson), que vive numa espécie de nave-observatório com seus diversos filhos, as doces estrelinhas conhecidas por Lumas. Querendo o poder da Princesa para resgatar ao seu pai, Bowser Jr. a sequestra, fazendo com que Rosalina peça ajuda a única pessoa em quem ela confia: Princesa Peach (Anya Taylor-Joy). Tomada pela coragem, Peach segue em busca de Rosalina, seguida por Mario (Chris Pratt), Luigi (Charlie Day) e Yoshi (Donald Glover), que ficaram involuntariamente pra trás para cuidar do castelo da Princesa. Juntos, a missão agora é salvar Rosalina das garras de Bowser Jr. enquanto tentam lidar com a companhia de um pequeno Bowser (Jack Black), completamente arrependido dos atos do primeiro filme.
Fãs da franquia irão notar algumas diferenças do filme para o jogo de 2007, que também traz elementos de outros jogos como Super Mario Galaxy 2 e Super Mario Odyssey, além das adições de personagens novos dentro da história. Como anunciado na cena pós-créditos do primeiro filme, o segundo conta com a presença de Yoshi, dinossauro querido pelos fãs do encanador. Embora essas diferenças existam para se encaixar dentro da narrativa do filme, sua história corrida e personagens acabam tropeçando no mar de referências que os roteiristas colocaram dentro da história.
Eu entendi que é um filme do Mario

Na época que Super Mario Bros. O Filme saiu, o YouTube foi inundado por vídeos de referências escondidas, o que foi bem divertido acompanhar na época, afinal – era uma ótima adaptação depois de uma longa lista de péssimos filmes baseados em videogames. Embora o primeiro longa não seja perfeito, o equilíbrio entre easter-eggs sutis e alguns óbvios acabava divertindo o espectador – o que não acontece muito em Super Mario Galaxy.
Embora o filme tenha diversas participações especiais e referências a outras franquias da Big N, algumas delas ficam tão exageradas que é impossível não enjoar no meio da história, que devia ser o foco principal. A impressão que passa é que a Illumination ouviu todas as ideias da Nintendo de “isso aqui é legal, os fãs vão adorar” e claramente faltou um filtro ali, onde até um simples toque em teclas de piano numa cena precisa ter a trilha sonora do Super Mario. Pela terceira vez.
Isso inclui a participação de Fox McCloud, personagem principal da franquia Star Fox, dublado pelo canastrão do momento, Glen Powell. Com uma das melhores cenas de origem dentro do filme, o personagem rouba a atenção todas as vezes em que aparece. Talvez, uma das maiores falhas do longa esteja justamente em volta desse personagem, icônico e amado por muitos – não tivemos a oportunidade de se surpreender com sua participação. Uma semana antes, a Universal Pictures anunciou o personagem na internet, acabando com uma das surpresas mais legais da história. Uma pena, pois poderia ser “é o Shadow, cara” parte 2.
Uma galáxia linda mas vazia

Embora seja um estúdio “relativamente novo”, a Illumination já provou ser capaz de criar ótimas animações e cativar audiências. A casa da franquia Meu Malvado Favorito mostra que ainda é capaz de criar belos mundos, com sequências que são lindas de acompanhar numa tela grande, nos transportando diretamente para o mundo mágico e colorido de Super Mario, assim como no primeiro filme. Detalhes e texturas de personagens, quando em foco, também chamam a atenção, não perdendo em nada para uma Pixar da vida.
Porém, esse cuidado maior tanto nos detalhes quanto nas referências acaba refletindo no ritmo e história do filme. Mesmo que tenha uma duração padrão para uma animação (uma hora e trinta e nove minutos), Super Mario Galaxy se preocupa mais em criar o universo do filme do que focar na narrativa em si, que acaba um pouco corrida entre intervalos de diversas piadas à lá minions – que eu pessoalmente não sou fã, mas entendo quem gosta do humor pastelão.
Um outro detalhe é o nome Galaxy do título: ao ouvir, você espera um número expressivo de mundos, certo? Ainda mais se você jogou os dois games da franquia, que possuem diversos planetas e fases completamente diferentes, mas marcantes. No filme, se quatro planetas são explorados é muito, não fazendo jus ao nome do filme. O primeiro, ao menos, nos deu cenas memoráveis como a batalha com Donkey Kong, o Reino Cogumelo e até em Nova York. Na sequência, o cenário que fica realmente na cabeça é a cena do Casino com o Rei Wart.
É melhor que o primeiro?

Mesmo expandindo seu universo nos cinemas, Super Mario Galaxy: O Filme fica abaixo do seu antecessor. Significa que é um filme ruim? Não, longe disso. Ainda é possível se divertir com algumas piadas e com o enredo, mesmo que corrido e com soluções preguiçosas de roteiro. No final, tanto os fãs de carteirinha quanto o público mais novo vão adorar assistir, caçar segredos e pensar na terceira parte da franquia (que fica claro pra onde irão seguir na segunda cena pós-créditos).
No fim, Super Mario Galaxy irá cumprir o seu papel de divertir, mesmo sendo um filme de Sessão da Tarde. A bilheteria alta vem aí, os números da Nintendo vão subir e a sequência está praticamente garantida. Porém, é sempre importante lembrar que, mesmo sendo um filme para crianças, ainda é possível uma animação se aprofundar em temas que sejam relevantes para todos os públicos, com histórias feitas não só para serem adaptadas de um lugar para o outro – Pixar e Studio Ghibli sabem fazer isso muito bem, com a Sony Pictures Animation logo atrás. Quem sabe numa próxima.
