A Netflix é conhecida por ter um catálogo vasto de produções que vão desde lançamentos independentes até grandes blockbusters estrelados por estrelas do cinema. Para o fim de semana do dia da mulher, a empresa lançou uma aposta peculiar: Máquina de Guerra, que pode ser considerado um dos filmes mais heterossexuais já produzidos pela empresa.
Enquanto filmes não possuem sexualidade e o longa pode agradar todos os públicos, a produção pressiona teclas que com certeza vão agradar o público masculino – e falo isso por experiência própria. Dirigido por Patrick Hughes, responsável por Mercenários, o filme coloca Alan Ritchson, o ator do tamanho de um armário conhecido por Reacher, interpretar um militar que luta contra um robô gigante alienígena.
A premissa acaba lembrando bastante os primórdios da franquia Predador, mas o filme tenta dar mais profundidade para a história com o lado militar do seu protagonista. O resultado é um filme totalmente másculo e que pode ser divertido, apesar de toda a tradicional “propaganda militar” dos Estados Unidos e a superficialidade esperada desse tipo de obra.
Um Predador moderno, mas inferior
Como é possível ver no trailer de Máquina de Guerra, o filme claramente passa uma vibe de “Predador moderno”. A premissa do longa-metragem traz um engenheiro militar que passou por um grande trauma tentando entrar nos Rangers, uma força de elite do exército dos EUA. No entanto, uma força alienígena acaba interferindo na última missão de seu batalhão.
O soldado 81, como o personagem de Ritchson é chamado, realiza o teste final no meio da floresta com seus colegas de equipe, isolado de seus comandantes e sem um arsenal para se defender das ameaças da natureza. No entanto, uma máquina robótica assassina do espaço pousa no local. Sem comunicação ou armas, o grupo precisa lidar com a monstruosidade para garantir sua sobrevivência – e o bem da humanidade.
Em seu âmago, o filme até conta com um “tempero” de Predador, mas a narrativa vai se distanciando com o passar do tempo. Enquanto o monstro da Fox, que hoje pertence à Disney, possui a missão de caçar por esporte, a máquina de guerra da Netflix não conta com propósitos muito claros além da destruição – algo que só é elaborado, bem de leve, no final.
Outro ponto que poderia ser mais interessante é a própria máquina de guerra, que não parece tão ameaçadora assim. Enquanto o robô gigante é imponente e faz barulho ao assistir o filme em uma soundbar, a criatura não é muito criativa.
Durante o filme, a máquina de guerra utiliza mísseis, granadas e um raio de energia como arma. No fim das contas, a grande ameaça do filme parece um tanque de guerra, só que vindo de outro planeta. Se você já viu o mencionado Predador ou até mesmo produções como Guerra dos Mundos, a grande ameaça de Máquina de Guerra pode não parecer tão ameaçadora assim.
Traumas militares ganham foco no filme
Além de lançar um filme másculo durante o fim de semana do dia da mulher, a Netflix também tocou em um tópico sensível sem querer: a propaganda de guerra durante os conflitos entre Estados Unidos e Irã. O filme não mede esforços em mostrar a grandiosidade de ser um “Ranger” com um soldado superando dificuldades com seu propósito, mas não deixa de lado os traumas causados pela carreira militar.
Durante todo o filme, acompanhamos o soldado 81 lidando com eventos traumáticos de combates anteriores, tanto física quanto mentalmente. Mesmo sendo um recruta exemplar para as forças especiais dos Rangers, o personagem evita a liderança, comete equívocos e perde o sono todas as noites por causa de suas vivências no campo de batalha.
Com cerca de duas horas de duração, o filme dedica bastante tempo para o desenvolvimento militar da trama, com belas imagens em florestas e campos abertos. Ainda assim, mesmo apresentando uma dezena de soldados, você só vai lembrar de alguns até o final da jornada, pois todos são bem descartáveis para a história.
Assim, o filme possui uma ameaça que poderia ser melhor e um grupo de protagonistas mal explorado, com apenas Ritchson ganhando um desenvolvimento real, mas que se calça em alguns momentos inacreditáveis. Depois de passar por uma lesão no joelho, eu, pessoalmente falando, não consigo acreditar que o soldado 81 conseguiu correr uma maratona na floresta e subir montanhas após uma lesão exposta, por exemplo. É a magia de Hollywood em ação.
Vale a pena?
No fim das contas, Máquina de Guerra acaba sendo um palco para mostrar o ator Alan Ritchson em mais um papel como brutamontes, seguindo a linha de Reacher. E, se você já conhece o trabalho do ator, vai ficar satisfeito com a atuação entregue e a narrativa desenvolvida durante a trama.
No entanto, mesmo se você for o público-alvo, prepare-se para alguns momentos que “forçam a barra”. O filme usa algumas liberdades criativas para tornar o protagonista ainda mais heroico que já parece, o que rende cenas praticamente inacreditáveis em alguns momentos.
Infelizmente, esse mesmo espírito de liberdade criativa não é aplicado na criatura que ameaça a humanidade. O monstro é basicamente um grande tanque de guerra, perdendo a chance de entrar para o panteão de criaturas que marcaram a cultura pop, como o Exterminador do Futuro, o Predador e o Xenomorfo.
Graças a isso, o longa-metragem acaba sendo mais uma peça de entretenimento barato da Netflix, que pode até divertir o público, mas certamente vai cair no esquecimento em pouco tempo.
