A inteligência artificial (IA) tem promovido evoluções em uma série de áreas, auxiliando desde descobertas científicas até na cibersegurança. Porém, esse tipo de ferramenta também pode ser usado em práticas criminosas, inclusive envolvendo pornografia.
O DeepNude, ou a criação de imagens íntimas não consensuais especialmente de mulheres, é um problema cada vez mais grave e que evolui junto com a capacidade e o acesso a essas ferramentas. As consequências dessa tecnologia são sérias e geram prejuízos em várias esferas da vida pública e privada.
A seguir, entenda como funciona essa tecnologia, as consequências da criação de materiais adultos envolvendo IA para vítimas e a atual situação jurídica disso na legislação brasileira.
O que é DeepNude?
O nome DeepNude é atualmente usado para englobar uma categoria de ferramentas em forma de site ou aplicativo que produzem material íntimo falso e sem consentimento de pessoas usando IA.
Também chamados de nudificadores, esses serviços “tiram a roupa” de pessoas de forma sintética a partir de uma única foto de referência, gerando uma nova imagem que replica a aparência de terceiros.
O nome DeepNude remete a um aplicativo de 2019, que também usava IA para gerar imagens falsas de nudez a partir de fotos comuns.
Apesar de já usado em fóruns e comunidades, o app ficou mais conhecido depois de uma reportagem e teve repercussão negativa imediata. Dias após o lançamento, o desenvolvedor anônimo tirou a plataforma do ar — com o código já liberado, permitindo cópias da ideia e do funcionamento.
DeepNude e deepfake são a mesma coisa?
Apesar da proximidade dos nomes e da temática, os termos se referem a tecnologias diferentes. Deepfake é o termo mais geral usado para mídias sintéticas (vídeos, áudios e imagens) criadas ou alteradas para parecerem reais.
Normalmente, o deepfake envolve a troca de rosto em um corpo diferente, para colocar celebridades, políticos e figuras públicas em geral em situações montadas. Isso pode ser feito para desinformação ou outros crimes, mas nem sempre tem propósitos ilegais por trás.
Já no DeepNude, o rosto e o contexto da foto são reais, mas a IA “gera” um corpo nu que estaria sob a roupa. Ele é um tipo de deepfake, embora com finalidade mais específica e criminosa envolvendo conteúdo íntimo.
Como funciona a tecnologia por trás do DeepNude
O DeepNude original se baseava em uma rede generativa adversarial (GAN, na sigla original em inglês), tecnologia que tenta “enganar” o olho humano com imagens realistas a partir de rodadas de tentativa e erro.
Esse tipo de plataforma é treinado com um grande conjunto de fotos de pessoas, com e sem roupas, para ser capaz de converter esses dados em novos padrões e gerar materiais solicitados.
Nos apps atuais, basta subir uma foto ao sistema para que o software devolva, em questão de segundos, uma nova imagem em que a roupa é removida. O app não “enxerga” ou prevê nada: o corpo nu é totalmente feito por IA, montado via algoritmos e “encaixado” junto ao rosto da pessoa retratada
Os “nudificadores” atuais evoluíram para modelos de difusão similares em funcionamento aos atuais geradores de imagem populares, como o Nano Banana da Google. Eles recriam partes específicas de uma foto de forma realista e com menos esforço, sem tantas evidências de que o material foi alterado.
O que é pornografia gerada por IA?
Esse é todo conteúdo sexualmente explícito (imagens, vídeos, áudios ou textos) criado ou manipulado por sistemas de IA generativa, que não foram filmados no mundo real.
O termo abrange situações variadas e diferentes, incluindo conteúdos totalmente sintéticos e que não retratam pessoas de verdade e os que modificam a imagem de usuários reais sem consentimento, como o caso do DeepNude.
Esses conteúdos gerados podem incluir desde textos eróticos até material de abuso sexual infantil, já amplamente encontrados em aplicativos e sites que propõe esse tipo de criação.
Como a tecnologia evoluiu nos últimos anos?
Em menos de uma década, a tecnologia por trás da criação de materiais adultos usando IA ficou melhor, mais barata e acessível a um maior número de pessoas, o que significa também que ela está mais perigosa.
Os primeiros deepfakes pornográficos, criados no fim da década de 2010, exigiam conhecimento em IA, computadores potentes e muitas imagens da pessoa que seria retratada na situação falsa. Além disso, eles produziam resultados com vários indícios de que aquele conteúdo tinha sido manipulado.
Poucos anos depois, os modelos de difusão aumentaram significativamente a qualidade das montagens. Além disso, o surgimento de sites, aplicativos e grupos em mensageiros como o Telegram que oferecem esses serviços derrubaram a barreira técnica e até financeira necessária para gerar esses materiais.
Alguns dos principais casos de pornô com IA
Ao longo dos anos, acontecimentos envolvendo a nudificação ou criação de montagens não consensuais envolvendo IA comprovam a gravidade do tema e a necessidade de combate a essa prática.
O caso que apresentou os deepfakes ao grande público envolveu a atriz Gal Gadot, de Mulher-Maravilha. No fim de 2017, um usuário do Reddit publicou um vídeo pornográfico em que o rosto da atriz foi encaixado no corpo de outra mulher.
Em setembro de 2023, mais de 20 meninas e adolescentes da cidade espanhola de Almendralejo denunciaram que imagens delas foram criadas por um aplicativo de IA e circularam em redes sociais e mensageiros. No ano seguinte, 15 adolescentes foram julgados e condenados a um ano de “liberdade vigiada” por crimes relacionados ao caso.
No Brasil, incidentes parecidos foram registrados em escolas de Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Grupos no Telegram que oferecem o serviço ao público brasileiro também foram identificados.
Até mesmo plataformas mais consolidadas já estiveram envolvidas na área. A rede social X foi palco de divulgação de imagens sexualizadas falsas de celebridades, incluindo da cantora Taylor Swift.
Já o Grok, chatbot de IA também da empresa de Elon Musk, foi usado no fim de 2025 para “tirar a roupa” principalmente de mulheres em imagens criadas gratuitamente.
Estudos apontam que o chatbot gerou milhões de imagens sexualizadas de mulheres, incluindo de menores de idade, até agora sem a devida responsabilização.
Quais são os riscos dos deepfakes íntimos?
A criação de imagens íntimas por IA combinam características perigosas de realismo, facilidade de produção e disseminação por plataformas digitais. Desse conjunto, resultam consequências que incluem:
- Violação do consentimento e da dignidade de quem foi alvo dessas montagens e em nenhum momento concordou em ceder a própria imagem para esses conteúdos;
- Possíveis crimes de extorsão e coerção para que os responsáveis pela criação não divulguem essas imagens para conhecidos ou na internet;
- Assédio, constrangimento e humilhação da vítima que é retratada nas imagens, por mais que os materiais sejam comprovados como falsos.
Os impactos incluem possíveis danos à saúde mental das pessoas envolvidas, reunindo reações como medo, ansiedade, depressão e isolamento, chegando até a sentimentos de automutilação.
O impacto na vida social das vítimas pode ser grande, com o bullying ou julgamento moral prejudicando reputação, emprego, estudos ou relacionamentos. Há até gastos concretos nesses casos, com equipes jurídicas contratadas ou pedidos manuais de remoção enviados para as plataformas.
Criar imagens íntimas falsas é crime?
A prática de “nudificação” é considerada criminosa e imoral pela opinião pública, mas uma eventual condenação dos responsáveis depende do país, da acusação e do que foi feito com as imagens produzidas.
Na legislação brasileira, não há um crime específico para criadores de deepnudes envolvendo adultos. Porém, isso não significa que a prática não possa gerar processos contra os responsáveis.
Criar a montagem e divulgá-la, além de ameaçar ou humilhar a vítima com práticas como chantagem, podem configurar crimes diferentes e passíveis de punição. No caso de vítimas mulheres ou menores de idade, leis atuais são ainda mais rigorosas e específicas.
- O artigo 147-B do Código Penal tipifica o crime de “causar dano emocional à mulher”, sendo que as penas agora são aumentadas pela metade se o crime for cometido com uso de recursos como IA;
- O Decreto nº 12.976, feito em 2026, obriga plataformas a “indisponibilizar a exibição não autorizada de conteúdo íntimo” contra mulheres em até duas horas após notificação, englobando tanto perseguição ou importunação sexual por meios digitais quanto as montagens sintéticas;
- Outra iniciativa recente é a Lei 15.487/2026, que amplia as penas e reforça medidas de combate e repressão à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital e manipulado ou criado por IA;
- O PL 3821/24, que trata especificamente do crime de “manipulação digital de imagens por IA”, está desde fevereiro de 2025 aguardando discussão no Senado Federal.
Já o Marco Civil da Internet e decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) indicam que a vítima pode pedir indenização por danos morais e a remoção do conteúdo. Além disso, plataformas podem ser responsabilizadas se, após notificação, não tirarem do ar o material íntimo falso e criado por IA sem autorização.
Por que é pergoso entregar a ‘preguiça mental’ para um chatbot de IA? Entenda mais! /Com informações de Vox e HackMag.