A decisão de cursar uma universidade deixou de ser o caminho preferido para parte dos adolescentes da Coreia do Sul. Em meio à expansão da indústria de semicondutores, jovens estão abandonando a formação superior tradicional para ingressar em escolas técnicas especializadas, que garantem alta empregabilidade e permitem conquistar vagas em grandes empresas antes dos 18 anos, com remunerações que podem superar a de profissionais com diploma universitário, de acordo com a revista Fortune.
O caso da Escola Secundária de Semicondutores de Chungbuk, localizada no sudeste de Seul, ilustra essa mudança. Segundo dados da instituição, 96,4% dos alunos concluem o curso já com uma oferta de emprego. Em vez de passarem os últimos anos do ensino médio focados nos exames de admissão às universidades, os estudantes aprendem conteúdos como projeto de circuitos eletrônicos, protocolos de salas limpas, controle de contaminação, cálculo e química, competências exigidas pela indústria de fabricação de chips.
Empregos antes dos 18 anos
Um dos estudantes é No Jun-sik, de 17 anos, que recebeu uma proposta de trabalho da Samsung. “Quando eu estava no ensino fundamental, tentei convencer alguns amigos a se matricularem comigo”, afirmou ao The New York Times. Segundo ele, os colegas preferiram seguir o caminho tradicional da universidade. “Muitos deles agora estão arrependidos”, acrescentou.
Cerca de um em cada quatro alunos da escola consegue emprego diretamente na Samsung. De acordo com o jornal The Korea Herald, o salário médio anual dos funcionários da Samsung Electronics foi de 158 milhões de won (US$ 107,3 mil) no ano passado. Pelo acordo trabalhista mais recente, empregados da divisão de semicondutores poderão receber até US$ 400 mil em 2027, caso as metas de lucro sejam alcançadas.
O movimento ocorre em um momento de transformação do mercado de trabalho impulsionada pela inteligência artificial (IA). Na Coreia do Sul, mais de 480 mil pessoas com diploma universitário estavam desempregadas no segundo trimestre de 2026, maior número dos últimos cinco anos. Entre jovens de 15 a 29 anos, a taxa de desemprego chegou a 7,2%. Ao mesmo tempo, a expansão da infraestrutura necessária para a IA, como fábricas de semicondutores e centros de dados, amplia a demanda por técnicos, operadores industriais, eletricistas e outros profissionais especializados.
A tendência também é observada nos EUA. Segundo pesquisa da McKinsey citada pela Bloomberg, a indústria americana de semicondutores deverá enfrentar um déficit de aproximadamente 157 mil trabalhadores qualificados até 2030. Dados da Associação da Indústria de Semicondutores mostram que um em cada cinco profissionais do setor não possui diploma universitário e que o salário médio anual da indústria era de cerca de US$ 170 mil em 2020.
Diante desse cenário, empresas ampliam investimentos em formação técnica. O JPMorgan Chase anunciou aporte de US$ 24 milhões para apoiar uma nova fábrica de montagem de submarinos e programas de qualificação profissional. A Meta lançou a America’s Workforce Academy, programa de US$ 115 milhões voltado ao treinamento de técnicos para centros de dados, com promessa de emprego ao fim das cinco semanas de curso.
Já a Lowe’s informou que investirá US$ 250 milhões para capacitar 250 mil trabalhadores em áreas como eletricidade, carpintaria e encanamento na próxima década. “Em um mundo onde as ocupações administrativas e analíticas serão cada vez mais dominadas pela aceleração da IA, acreditamos que a iniciativa de profissões técnicas especializadas será ainda mais importante em um futuro próximo”, afirmou Marvin Ellison, CEO da Lowe’s, à Fortune.

