Que fim levou o Pirate Bay, site que era o ‘rei’ dos torrents?

O compartilhamento de arquivos a partir do protocolo de transferência peer-to-peer (P2P) via torrent ainda é relativamente popular, mas teve um período de auge na primeira década dos anos 2000. Nesse contexto bem diferente do atual, talvez o site mais famoso para o download de conteúdos de múltiplos formatos era o The Pirate Bay.

A página foi por anos uma das principais referências no setor de compartilhamento de filmes, séries, jogos, softwares e outros arquivos, a maioria deles no campo da pirataria. Até por isso, o projeto passou anos encarando processos judiciais e ações policiais que tentaram derrubar essas operações.

Hoje em dia, porém, a antes tão famosa baía pirata não conta mais com a popularidade que um dia já teve, mesmo que ainda esteja na memória de muitos antigos visitantes. 

Mas, afinal, o que aconteceu com o The Pirate Bay e por onde anda o antigo “rei dos torrents”? É o que o TecMundo desvenda a seguir.

O nascimento da baía pirata

O The Pirate Bay foi inaugurado em 2003 na Suécia por Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm Warg e Peter Sunde, com o financiamento de um empresário local chamado Carl Lundström para manter as operações.

O trio integrava um grupo de ativistas, artistas e programadores que tinham como principal lema a necessidade de compartilhamento da cultura — e, portanto, não respeitar eventuais acordos e leis de direitos autorais. O documentário TPB AFK: The Pirate Bay Away From Keyboard, de 2013 e disponível gratuitamente no YouTube, conta com mais detalhes a origem e o turbulento período de julgamento contra os fundadores.

A página inicial e minimalista do projeto. (Imagem: Reprodução/The Pirate Bay)

O site de hospedagem e direcionamento de downloads começou com uma operação principalmente local, mas em poucos meses já se transformou em uma das páginas mais visitadas de toda a internet. O período era de intenso fluxo de conteúdos piratas não apenas via torrent, mas por programas como LimeWire ou eMule e sites como RapidShare e Megaupload.

A página minimalista e o bom número de usuários auxiliando no compartilhamento (como ‘seeds’ dos arquivos) quando o The Pirate Bay era uma das poucas e melhores alternativas do setor fizeram ele virar quase sinônimo de torrent.

Até mesmo o endereço dele ficou conhecido até quem não utiliza o serviço. Durante anos, ele usou como domínios mais famosos o “.org” e o “.se” — só que isso mudou algumas vezes, em especial por causa dos problemas que ele encarou com autoridades de todo o mundo.

Perseguições sem fim

Ainda em 2006, o The Pirate Bay sofre o primeiro grande processo na Suécia. Os fundadores foram acusados de violação de direitos autorais e, na ocasião, os servidores em Estocolmo foram apreendidos.

Só que a página voltou ao ar depois de três dias, já que ela contava com um esquema elaborado de operação: o Pirate Bay original não centralizava o conteúdo do site em um servidor apenas e tinha cópias de emergência para esses casos.

Três anos depois em 2009, o caso escala para a prisão e o julgamento do trio. Em defesa, os responsáveis pelo site sempre alegaram que não havia a hospedagem de conteúdo ilegal, apenas de links que levariam, se o usuário quisesse, ao download de certos conteúdos.

Essa defesa não convenceu o júri: Fredrik, Gottfrid, Peter e Carl foram condenados a um ano de prisão e uma multa de US$ 3,6 milhões em valores da época, o que na cotação atual equivale a cerca de R$ 18 milhões. Os réus cumpriram a pena após serem considerados foragidos — Gottfrid foi preso em 2012 no Camboja, onde vivia ilegalmente, e posteriormente condenado por outros crimes para além da pirataria, enquanto Peter e Fredrik acabaram detidos separadamente em 2014.

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Gottfried durante depoimento no julgamento. (Imagem: TPB AFK/Reprodução)

Ainda como resultado das ações judiciais, em 2012 o The Pirate Bay para de oferecer arquivos de torrent propriamente ditos e passa a trabalhar apenas com links do tipo magnet — que levam ao download do mesmo arquivo, porém indiretamente e colocando a página mais como uma intermediária.

Novamente, a fórmula não se sustentou por tanto tempo. Em 2014, o site volta a ter os servidores derrubados pela polícia sueca, em uma ação que na época parecia definitiva. Foram sete semanas ao todo fora do ar, com clones e replicações surgindo no lugar como alternativas, até que ele volta a operar no início do ano seguinte.

Ao longo dos anos, várias operações policiais derrubaram sistematicamente os servidores do projeto. Até por isso, o domínio passou a ser registrado em outras regiões e a equipe migrou a estrutura para localidades remotas e escondidas, dificultando operações das autoridades.

O Pirate Bay ainda existe?

O The Pirate Bay segue online até hoje como um serviço de busca para que você encontre links de download via magnet, mesmo após várias instabilidades por ordens judiciais ao longo dos anos e a prisão dos fundadores.

Curiosamente, o público fiel mantém até hoje um torrent que é considerado mais antigo ainda em atividade no site (ou seja, com ao menos um usuário enviando seeds para que outros possam baixá-lo). Ele foi adicionado em 25 de março de 2004 e é um episódio com localização para o sueco de “Chaparral”, série de faroeste que passou entre 1967 e 1971 na TV dos Estados Unidos.

A página, porém, perdeu popularidade até entre a comunidade de entusiastas do torrent por uma série de motivos, que incluem:

  • Hospedar muitos arquivos inseguros e problemáticos, de arquivos falsos até softwares com malwares embutidos e sem tanta moderação dos responsáveis;
  • Ter uma série de sites-espelho que simulam ou replicam parte dos arquivos do acervo original, mas são ainda mais potencialmente inseguros que a página do domínio “.org”;
  • A enorme quantidade de anúncios na página e o alto risco desses serviços, desde a VPN oferecida pelo próprio site até propagandas que podem levar você a ser vítima de golpes como phishing ou baixar arquivos danosos ao PC;
  • O acesso instável ou bloqueado em alguns países e operadoras, que torna ele uma alternativa menos lembrada pelo público;
  • O fracasso de projetos paralelos para ajudar a sustentar o site, como uma criptomoeda;
  • Outras páginas e plataformas de torrent ou formas de obtenção dos arquivos piratas se popularizaram em seu lugar, de drives até serviços digitais, como plataformas de TV box.

O fato de o streaming ter reduzido de forma significativa a procura por downloads via torrent, embora ela tenha aumentado novamente nos últimos anos com os aumentos nas mensalidades e o catálogo fragmentado desse mercado, também contribui para a derrocada desse projeto tão pioneiro.

Já os fundadores do The Pirate Bay não estão mais envolvidos com o site e foram para áreas paralelas. Eles participaram da fundação do Partido Pirata na Suécia, ainda defendendo a flexibilização de direitos autorais, e seguem trabalhando na área de tecnologia como executivos ou desenvolvedores. Carl faleceu em 2025 em um acidente de avião.

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