Quando um livro é adaptado para o cinema, muita expectativa é criada em torno da fidelidade da história. Margot Robbie, protagonista e produtora do filme, descreveu a versão de Emerald Fennell do clássico O Morro dos Ventos Uivantes como um “grande romance épico”, mas fãs do livro de Emily Brontë defendem que a história é muito mais do que isso.
Desde o anúncio, a adaptação em questão tem sido alvo de críticas severas. Tanto pelo elenco escolhido quanto pela trilha sonora e até pelos figurinos; o que o público tinha até então era apenas o trailer e as informações públicas. Mas, nesta quinta-feira, 12 de fevereiro, o filme chegará aos cinemas e, junto com ele, mais opiniões sobre a forma como foi executado. Afinal, vale a pena assistir a O Morro dos Ventos Uivantes? Confira abaixo a crítica do Minha Série:
Quão fiel uma adaptação tem de ser?
A diretora Emerald Fennell deixou claro que o filme trataria de sua visão sobre a obra O Morro dos Ventos Uivantes, ou seja, de sua própria interpretação do clássico. Com essa declaração, ela não se compromete a entregar uma obra exatamente igual ao original. Não à toa, a diretora escolheu divulgar o título do filme entre aspas. Além disso, ela possui uma origem privilegiada, o que costuma influenciar a interpretação de uma obra, embora não necessariamente.
Essa insatisfação é justificada. Na história clássica, as relações de poder são o cerne dos conflitos, e a etnia possui uma conexão direta com elas.
A versão de Fennell entrega, acima de tudo, uma história sobre paixão. Por definição, paixão é um sentimento de intensidade extrema, que se sobrepõe à lucidez e à razão, e é exatamente isso que ela consegue representar por meio de Catherine e Heathcliff. A química entre Jacob Elordi e Margot Robbie traz o que é necessário para essa relação complexa dos protagonistas, porém isso não é suficiente para compensar o que a diretora deixou de lado.
Começo da polêmica: a escolha do elenco

As principais críticas ao elenco dizem respeito à seleção de um ator branco para interpretar um personagem racializado. Essa insatisfação é justificada. Na história clássica, as relações de poder são o cerne dos conflitos, e a etnia possui uma conexão direta com elas. Por mais que a performance de Jacob Elordi como Heathcliff tenha sido impecável, essa característica racial do protagonista impacta diretamente a narrativa.
Se esse fator faz diferença em histórias contadas em 2026, imagine em uma obra lançada em 1847. Fennell poderia ter evitado essa disparidade, ainda mais levando em conta que Elordi seria o sexto Heathcliff do audiovisual, sendo apenas um deles interpretado por um homem racializado (o da adaptação mais recente, de 2011). A intenção de escalar um ator em evidência é compreensível, mas não justificável a essa altura do campeonato, considerando a quantidade de atores não brancos que se encaixariam no papel.

Outra crítica foi em relação à idade dos atores. Por mais que, na vida real, exista essa diferença, ela não é perceptível no filme. Margot Robbie dá vida a uma Cathy divertida, sensível e com a loucura que o nível de paixão do filme exige. A idade da atriz não implica de maneira relevante em sua performance como Cathy; mesmo não tendo 19 anos, ela entrega a personalidade jovial que esse protagonismo pede.
Quanto aos atores que interpretam Heathcliff e Cathy mais jovens, é impressionante a performance de ambos na tela. Esse impacto se torna essencial, já que são eles que apresentam os personagens ao público. Charlotte Mellington interpreta uma jovem Cathy muito carismática, e Owen Cooper faz jus ao Globo de Ouro conquistado pela série Adolescência.
Cenas íntimas, mas com propósito

As cenas sensuais que aparecem no trailer deram o que falar, mas no filme elas cumprem um propósito no desenvolvimento dos personagens. Se você, assim como eu, não leu o livro original, pode sentir que é aqui que a narrativa se torna mais interessante. A intimidade entre os dois não se constrói apenas pelo sexo, mas também pelos momentos compartilhados que revelam a conexão profunda entre os protagonistas.
Os olhares, as ações, os diálogos e os toques são potencializados pela química entre os atores. A forma como a intensidade cresce entre eles deixa claro que o final escolhido é mais do que realista para a história de Cathy e Heathcliff.
Faz sentido que momentos íntimos não existam em um romance trágico do século XIX, mas atualmente seria estranho, e até um pouco surreal, pensar em uma grande paixão descontrolada sem incluir cenas mais picantes entre os protagonistas. Mesmo que Fennell tenha errado em momentos-chave de sua adaptação, é injusto reduzir o trabalho da diretora a cenas vulgares e sem propósito. Definitivamente, não é o caso aqui.
Direção de arte lúdica e divertida

Os figurinos da adaptação também precisam ser colocados “entre aspas”. Embora sejam claramente inspirados em trajes de época, alguns vestidos usados por Cathy apresentam detalhes quase lúdicos. Essa mistura de tecidos contemporâneos complementa cenários igualmente extravagantes.

Essa escolha da diretora evidencia as diferenças de classe ao longo da narrativa e se mistura a outros momentos lúdicos do filme. O absurdo de certas cenas combina perfeitamente com a falta de lucidez, a loucura, a obsessão e a paixão entre os personagens, além de ser uma forma interessante de a produção fugir do óbvio e do esperado na direção de arte.
Trilha sonora inesperada

A cantora pop Charli XCX, aclamada pelo álbum BRAT (2024), foi escolhida para desenvolver a trilha sonora da adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes.
Os trechos instrumentais utilizados são bonitos e funcionam bem nas cenas, mas o autotune característico do trabalho da cantora, ainda que proposital, tirou um pouco da minha imersão no filme. Nada que comprometa gravemente a experiência, mas não funcionou tão bem para mim. Ainda assim, considerando a intenção da diretora de contrastar diversos elementos da obra, a escolha de uma trilha modernizada é coerente, mesmo que eu não concorde totalmente com ela.
Vale a pena assistir a O Morro dos Ventos Uivantes?
O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell, é tudo a que se propõe: uma adaptação pessoal do clássico de Emily Brontë. Caso você não tenha lido o livro e não se importe com a fidelidade à história original, este é, sim, um filme completo. Com escolhas técnicas interessantes, a obra é divertida, mas também densa e sentimental, podendo até emocionar em seu desfecho.
Por outro lado, se você é fã de carteirinha da obra original, é provável que saia do cinema revoltado. Para mim, O Morro dos Ventos Uivantes é um bom filme, com ótimas performances e escolhas estéticas ousadas e certeiras, mas que deve ser criticado por deixar de lado temas importantes presentes no material original. É impossível conversar sobre o filme sem mencionar esse descaso, que poderia ter sido evitado de maneira simples.
Mas e você? Vai assistir ao filme no cinema? Já leu a obra original? Você pode contar as suas expectativas para nós nas redes sociais do Minha Série! Estamos no Threads, Instagram, TikTok e até mesmo no WhatsApp. Venha acompanhar filmes e séries com a gente!
