A Electronic Arts já utiliza inteligência artificial no processo de narração do EA Sports FC. A tecnologia é aplicada para recriar a voz de pelo menos um dos comentaristas do jogo, o narrador Guy Mowbray, que participa da franquia desde o EA Sports FC 24 — e ele próprio explicou como funciona o trabalho em entrevista à BBC.
Segundo Mowbray, o uso de IA acontece com autorização direta do narrador e está ligado, principalmente, à necessidade de dar conta da enorme base de jogadores presentes no game. A cada edição, novos atletas são adicionados, o que certamente exige atualizações constantes no sistema de comentários.
A EA reforça que a inteligência artificial atua como apoio ao desenvolvimento e não substitui os profissionais envolvidos. Em comunicado, a empresa afirmou que o processo é colaborativo e faz parte de uma estrutura já consolidada dentro da produção do jogo.
Guy Mowbray precisa narrar nome de mais de 20.000 jogadores
O trabalho de Guy Mowbray no EA Sports FC envolve a gravação dos nomes de mais de 20 mil jogadores reais. Cada nome precisa ser registrado diversas vezes, com variações de entonação, para se adequar a diferentes situações de jogo, como passes, finalizações ou gols.
De acordo com o narrador, esse processo faz parte de sua rotina praticamente todas as semanas, entre os meses de novembro e julho. A frequência está ligada às constantes atualizações de elencos e conteúdos do jogo ao longo da temporada.

Para tornar o processo viável, a EA utiliza uma recriação por IA da voz de Mowbray, sempre com sua permissão, para gravar parte dessas menções. Isso reduz a necessidade de sessões intermináveis apenas para nomes específicos.
Ainda assim, o narrador explica que falas mais longas e contextuais não são geradas por IA. Segundo ele, esse tipo de comentário precisa soar natural e refletir exatamente a forma como ele se expressaria em uma transmissão real.
“Não dá para roteirizar para mim, porque tem que ser no meu estilo e como eu diria na vida real”, explicou Mowbray, ao comentar sobre a criação de múltiplas variações de uma mesma frase.
Processo de narração com IA no EA Sports acontece “há muito tempo”
Outro nome do time de comentaristas, Sue Smith, afirmou que o uso de tecnologia no processo de gravação não é algo recente. Segundo ela, as sessões acontecem ao longo de vários meses e exigem alto nível de consistência vocal.

Smith destacou que manter o mesmo tom e qualidade entre gravações feitas com meses de intervalo é um dos maiores desafios. Qualquer variação pode soar artificial quando as falas são inseridas no jogo.
“Se houver qualquer tipo de variação, provavelmente soará muito estranho”, afirmou a comentarista, ressaltando a preocupação constante em manter a naturalidade da narração.
Em comunicado à BBC, a EA reforçou essa visão. “A inteligência artificial faz parte do nosso processo de desenvolvimento há muito tempo, desde animações até sistemas de jogabilidade, e continua a apoiar nossas equipes”, disse a empresa, acrescentando que comentários e conteúdo seguem sendo feitos em colaboração com os talentos.
IA é pauta para debates acalorados na indústria dos games
O uso de inteligência artificial em jogos, mesmo como ferramenta de apoio, segue gerando discussões intensas na indústria. Parte dos profissionais vê a tecnologia como um meio de agilizar processos, enquanto outros demonstram preocupação com possíveis impactos no mercado de trabalho.

O diretor criativo Yoko Taro, por exemplo, afirmou recentemente que a IA pode, no futuro, substituir desenvolvedores humanos. Em entrevista, ele projetou que criadores de jogos poderiam perder espaço em até 50 anos.
Por outro lado, executivos e diretores de estúdios adotam uma visão mais pragmática. Nomes como Daniel Vávra e Strauss Zelnick defendem que a IA pode acelerar o desenvolvimento e até ampliar oportunidades, em vez de eliminá-las.
Há também quem veja a tecnologia como algo inevitável, mas que deve ser usada em conjunto com a criatividade humana. Para esses profissionais, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre eficiência técnica e identidade criativa.
Casos recentes envolvendo dubladores que se recusaram a autorizar o uso de suas vozes para treinar IA mostram que o tema ainda está longe de um consenso dentro da indústria.
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